A música tocando. Estava tentando
se distrair. Relaxar? Se conseguisse, seria um milagre. Não podia ser
diferente, depois do que fizera.
Ontem de tarde. Um dia que não
deveria e não podia ser lembrado. Não se quisesse viver em paz o resto de sua
vida. Mas é impossível. Um surto de
insanidade, que veio como o vento, e levou sua vida embora como leva uma folha,
girando no ar.
Naquela tarde, se sentiu mal no
trabalho. Seu chefe o mandou para casa.
Agora, não sabe se foi uma boa decisão obedecê-lo.
Ao chegar em casa, se deparou com
a cena. A sala bagunçada, algo acontecera ali. Em cima da mesa, vê dois
copos. Seus copos, que ganhara como presente
de casamento da sua mãe. Analisou-os. Ambos exalavam um cheiro de álcool.
Uísque. Havia uma pequena diferença, quase imperceptível, entre os dois. Um dos
copos tinha uma leve marca de batom rosa.
Estranhou. Saíra cedo, e
geralmente volta tarde. Sua esposa disse viajaria a trabalho. Como não tinha
empregada, a casa ficara só.
Tentou ignorar. Provavelmente
teria bebido na noite anterior com sua esposa. Resolveu se deitar.
Ao chegar no quarto, viu. O resto
foi só um aglomerado de gritos. E sangue.
Hoje, só consegue ficar parado. Pensando.
Chorando. Espantado com sua própria capacidade. E descontrole.
Escutando o aleatório do
reprodutor de música, veio sua música preferida. A essa altura, deveria ser a
música que mais odiava. A música que o fazia lembrar dos momentos bons. Que
nunca voltariam.
Agora, era só uma questão de
tempo... As sirenes já se faziam presentes.
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