sábado, 24 de janeiro de 2015

Lençóis


Tarde da noite. Rolando na cama, o sono custa a vir. Está suado.
Pensamentos diversos. Liga a televisão. Documentários sobre sonâmbulos. Seus amigos já haviam comentado que já o haviam visto falar ao dormir. Sempre ignorou. Programou o timer da televisão e se virou.
Amanhã, tudo igual. Tudo recomeça. Mas alguma coisa mudou. Até agora, sem saber o que é.
O despertador toca. 7:18, já está atrasado. Mais um dia normal, dando aula de geografia. Alunos desatentos, colegas estressados. Incrivelmente, se sente bem. Mas a sensação está lá.
Para um pouco para refletir sobre ela. Não consegue defini-la. Ruim ou boa, perda ou surpresa, alegria ou decepção. Decide tentar esquecer.
Estranha, um dia sem telefonemas. Se surpreende pelo fato dela não ter ligado. Sempre liga, resolveu dar um dia de folga. Agradece.
O dia continua. O sino toca. Está livre. Ao ver as crianças correndo, se lembra do seu tempo. Tempos em que sua mãe lhe buscava.
Porém, lembrou-se também do outro dia. E da briga. Motivos bestas, que tomaram dimensões exageradas. Sua mãe gritando, tentava se conter. No fundo, ainda estava com raiva. Mas sentia culpa. Novamente, tenta esquecer.
Trânsito lento, caminho longo. Finalmente chegou. Tudo que queria era descansar. Mas o cenário que imaginava está diferente.
Não consegue entender. Pensa estar sonhando, ou que talvez tenha se colocado no lugar de algum personagem de um filme policial. Policiais, faixas de interdição, repórteres sensacionalistas. Em meio à multidão, conseguiu ver. Sua mãe, coberta por um lençol branco.
"Beto Carvalho?" perguntou um dos policiais.
"Sim, sou eu" respondeu.
"Você está preso. É melhor se preparar. A partir de agora, seus sonhos não se tornarão mais realidade".
Era perda e surpresa ao mesmo tempo.
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